Gostava que não estivesses lá estado. Que me tivesses deixado no momento em que decidiste não vir comigo. Que não gritasse o teu nome cada pedra. E que aquele pedaço de terra à deriva não tivesse sido feito para ti. Para que não me lembrasse desse tão morto tu de cada vez que olhei em volta. Podia um sítio gritar mais por ti? Um nevoeiro cravado da pele ao coração, como se carregasse para todo o lado o que morreu de ti em nós. Há qualquer coisa de errado na esperança. Talvez a esperança em si mesma. Não a esperança de encontrar-te como dantes. Mas a esperança de que seria possível ver o mundo como o via antes de o ver pelos teus olhos. Quem me dera que não estivesses lá estado.
pior do que nos perdermos no caminho por onde se parte à aventura é não ter qualquer noção do espaço de onde não saímos. O marasmo onde pegajosamente nos movimentamos. O cansaço é uma trela. Não extensível. Pregos que nos atam a um chão onde não há hipótese de nascerem flores. O marasmo é alérgico ao pólen. A vida alérgica ao pólen. Um dia, ligo a televisão e o mundo a passar-me do outro lado do vidro. Sempre do outro lado do vidro, do outro lado de qualquer coisa. Deste lado, uma espiral de pesos pendurados nos braços. Um dia, abro o jornal e as letras fogem-me. Um dia olho o espelho e só a parede. E o medo. A incapacidade. Todos os dias um dia.
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